BONI, MEMÓRIAS E VIVÊNCIAS
Ronne Franklim Dias*
Curador
A produção artística de Boni nasce de uma relação sensível com a paisagem, a memória e os modos de existência da Amazônia Equatorial. Suas pinturas não representam simplesmente um lugar: são experiências visuais construídas pelo contato entre aquilo que se vive e recorda. Nesse percurso, surgem imagens topográficas atravessadas por um colorismo pulsante, configurando uma narratividade de experiência e memória.
Essa poética também se revela na materialidade da pintura. Camadas aplicadas com espátulas, pincéis e outros procedimentos, acumulam-se e deixam vestígios do próprio fazer. Fragmentações, linhas densas, manchas e aguadas transitam entre o figurativo e o abstrato. A superfície transforma-se, assim, em espaço de gestos e inscrições.
A Amazônia não aparece como paisagem idealizada, mas como território de vitalidade e vulnerabilidade. Fragmentos, janelas e rupturas atravessam as composições como sinais de um ambiente em transformação. A paisagem deixa de ser cenário para tornar-se testemunho. Nas experiências vividas pelo artista no Marajó, permanece uma referência afetiva que alimenta seu olhar e aproxima elementos naturais e antrópicos de saberes ribeirinhos.
Há, finalmente, uma poética do fragmento: cada imagem sugere um território maior. Entre camadas e demarcações lineares, Boni transforma experiências amazônicas em matéria visual, convertendo a paisagem em memória e gesto. Diante de questões socioambientais, sua pintura nos convida a um olhar demorado sobre aquilo que existe, o que pode desaparecer e aquilo que ainda podemos reconhecer, lembrar e cuidar.
25 de setembro de 2026.
* Professor Titular do Instituto Federal do Amapá (IFAP). Doutor em Arte e Cultura Visual (UFG). Coordenador da Galeria de Arte Virtual 21.